25 de junho de 2020
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Os efeitos da pandemia nas refeições de crianças e adolescentes

No último dia 10 de junho, aconteceu o webinar “Covid-19: situação nutricional de crianças e adolescentes — perspectivas após o distanciamento social”. Realizado pelo Instituto PENSI, em São Paulo, uma organização da Fundação José Luiz Egydio Setúbal, o evento teve o apoio da Abeso e de outras sociedades médicas, contando com a participação de especialistas brasileiros, da Espanha e de Portugal.

Nesses dois países europeus, onde o distanciamento social já começou a ser afrouxado com a diminuição da curva de transmissão da covid-19, o questionamento é se o período de confinamento em casa foi longo o suficiente para mudar o comportamento alimentar das famílias, seja de maneira positiva ou negativa. Nesse sentido, ainda não há certezas.

Para o coordenador do webinar, o nutrólogo Mauro Fisberg,
professor da Universidade Federal de São Paulo e membro do departamento de obesidade infantil da Abeso, algumas mudanças observadas na quarentena, tanto aqui como no Exterior, foram bem-vindas: “Muita gente começou a cozinhar; as famílias planejaram o cardápio como nós, profissionais de saúde preocupados com a obesidade, sempre preconizamos; as crianças participaram das atividades na cozinha e, em alguns casos, o esquema de home-office dos pais permitiu que todos fizessem refeições juntos”, disse ele.

No entanto, existe também o outro lado: o da a suspeita de que, durante esse período sem sair para as ruas nem para a escola, as crianças ingeriram mais doces e fast-food. “Isso pode já ter levado a um aumento considerável de peso.”

A experiência da Espanha

Um dos convidados do webinar foi o pediatra Luis Moreno Aznar. Professor da Universidade de Zaragoza, na Espanha, ele é autor de cerca de cem capítulos de livros e publicou mais de 500 trabalhos em periódicos científicos.

Na ocasião, o médico se mostrou preocupado: “Existe uma forte possibilidade de que tenha aumentado demais o consumo de alimentos processados com alta densidade energética na Espanha.” E falou isso apesar de alguns dados citados por ele próprio apontarem para outra direção.

Por exemplo, um estudo publicado na Revista Española de Nutrición Comunitaria entrevistou cerca de 1 mil indivíduos de seu país pela web. De acordo com esse inventário virtual, 72% deles estão comendo mais frutas; 25%, mais ovos; 23% andam colocando mais legumes no prato e 20% passaram a consumir mais peixes. As crianças da casa, em tese, seguiriam essa dieta mais saudável também.

Quase um quarto dos respondentes ainda afirmou que está consumindo menos chocolate. E 36% diminuíram as porções de carnes processadas. Entre aqueles que, até a chegada da covid-19 não cozinhavam, 14% passaram a se aventurar no fogão.

Outro trabalho, este da Universidade de Granada com 7.500 espanhóis que também responderam um questionário online, indica uma maior aderência à dieta mediterrânea, com um aumento expressivo do consumo de vegetais e uma diminuição importante de alimentos ultraprocessados na despensa.

Mesmo assim, o professor Luís Moreno não demonstra muito entusiasmo. E justifica: “Perto de 78% dos respondentes tinham nível universitário e isso decididamente não é representativo da Espanha”. Para o professor Mauro Fisberg, é bem possível que no Brasil também existam esses dois mundos à mesa. Enquanto pessoas mais favorecidas economicamente podem ter melhorado o seu padrão alimentar, talvez boa parte da população mais vulnerável tenha ingerido porções mais fartas alimentos pobres em termos nutricionais, porém com alta densidade energética.

E a experiência de Portugal?

Em Portugal, 47% das pessoas capricharam em bolos, pasteis de nata e afins, segundo o nutricionista Sergio Cunha Velho, do Hospital Pediátrico de Coimbra. Esse dado foi extraído de um questionário online aplicado em 1.346 portugueses. Para o nutricionista, chega a ser lógico observar tamanho apetite por doces: “A pandemia aumentou o estresse e ele, por sua vez, notoriamente está associado a um maior desejo por açúcar”.

Apesar de se dedicarem ao preparo de sobremesas, os portugueses compraram menos bebidas açucaradas. Suas vendas despencaram 21% durante o período de distanciamento social. Mas Sergio Cunha Velho lembrou no webinar que, em seu país, essas bebidas são altamente taxadas e, por isso, como o preço fica muito elevado, o consumo acabou de ressentindo nesse período da pandemia em função de as pessoas temerem uma crise econômica.

E, mesmo com tudo isso que parece tão positivo, os primeiros números levantados em Portugal após a fase mais rígida de distanciamento social apontam que 25% dos indivíduos ganharam peso no confinamento. Olhando para as crianças, no hospital onde Cunha Velho atua, 18 das 52 que até a data do webinar tinham passado pela área de nutrição da instituição— a qual, então, só estava atendendo aqueles casos mais urgentes — tiveram um aumento do IMC, o índice de massa corporal.

“Provavelmente, o fator mais importante nessa história não foi a alimentação, ligeiramente mais equilibrada do que antes, mas a diminuição na atividade física mesmo”, lamenta Cunha Velho. Para ele, em matéria de atividade física a situação das crianças pode ser pior do que a dos pais. “Elas só enxergam graça quando correm e brincam com os coleguinhas. Sem eles, tendem a passar o dia no sofá”, nota.

E como fica o Brasil?

Quem trouxe alguns dados brasileiros durante o webinar foi a nutricionista Michele Alessandra de Castro. Doutora em ciências pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, ela atua na Coordenadoria de Alimentação Escolar (CODAE) da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.

No início de sua fala, Michele Castro fez questão de dar um panorama do nosso cenário antes da pandemia. E ele já era grave: “38% das crianças entre 5 e 9 anos que frequentam a rede municipal paulistana estavam acima do peso quando a covid-19 chegou no país” , revelou.

Nessa faixa etária, os dados apontavam para um baixo consumo de fibras, por exemplo. Em compensação, a garotada vinha consumindo excessivamente sal, açúcar e gorduras.

E agora, pelos primeiros dados levantados durante o período de confinamento em casa — “aliás, um confinamento que, infelizmente, foi praticado por apenas 55% da população de São Paulo, quando muito”, disse ela —, nota-se que nas populações mais vulneráveis houve uma queda importante na qualidade nutricional das refeições da garotada. Até porque as crianças e os adolescentes deixaram de almoçar e lanchar na escola.

“O poder público precisa fazer alguma coisa, como estimular a oferta de serviços de alimentação saudável a baixo preço, e incentivar doações de alimentos de boa qualidade nutricional também”, sugeriu. “Caso contrário, podemos agravar demais uma situação que já era ruim antes. Ainda mais pensando que, sem aulas, esses jovens também pararam de fazer Educação Física, assim como, confinados em casa, deixaram de usar os parques e outros espaços públicos. Sem dúvida, esse sedentarismo terá um forte impacto negativo nos números da obesidade infantil”, prevê.

Os profissionais de saúde interessados ainda podem assistir a esse webinar pelo link http://ead.ensinosabara.org.br


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