20 de março de 2024
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MARGARETH DALCOMO: “A obesidade é capaz de agravar qualquer doença respiratória”

Pesquisadora da Fiocruz, membro titular da Academia Nacional de Medicina e professora de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro — estas são poucas linhas perto do extenso currículo da pneumologista Margareth Dalcomo.

Por ser, também, a atual presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, ela foi entrevistada para a campanha #vamosfalarsobreobesidade — realizada pela Abeso, em parceria com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a World Obesity Federation.

Autora de mais de 120 artigos científicos sobre doenças infeciosas que acometem as vias respiratórias, a médica falou à jornalista Lúcia Helena de Oliveira sobre o impacto da obesidade na saúde pulmonar com o mesmo jeito claro com o qual se dirigiu inúmeras vezes à população brasileira ao se tornar uma das vozes mais relevantes do país na defesa da ciência durante a pandemia da covid-19.

A população aprendeu a duras penas na pandemia que a obesidade era um fator de risco para quadros severos de covid-19. Isso valeria para outras doenças respiratórias?

MARGARETH DALCOMO — Sendo franca, a obesidade é, por si só, um fator de morbidade a ser considerado em qualquer domínio da clínica médica — e não apenas na Pneumologia. Mas, sim, nas doenças respiratórias não há dúvida de que ela é um fator de risco importante para o agravamento. O paciente com obesidade que apresenta asma, por exemplo, sofre bem mais, com crises que costumam ser mais frequentes e intensas. 

Por quê? 

MARGARETH DALCOMO — Porque o organismo da pessoa com obesidade já é inflamado. E a asma é uma doença obstrutiva crônica e de carácter inflamatório. Portanto, é como se fosse uma outra inflamação somando-se à da asma. Obviamente, o resultado dessa soma é uma probabilidade mais elevada de o quadro se agravar, com maior comprometimento da qualidade de vida e necessidade de hospitalizações. Observamos uma relação semelhante na DPOC, a doença pulmonar obstrutiva crônica.

A sra. mencionou duas doenças que não são infecciosas…

MARGARETH DALCOMO — Mas nas infecções respiratórias é a mesma coisa! A inflamação que elas provocam sempre ameaça a passagem do ar e quando isso ocorre em um organismo que, por natureza, já vive mais inflamado… A covid-19 é um exemplo, eu diria, paradigmático: nela, a obesidade se revelou um fator de risco isolado para quadros severos, independentemente do sexo, da raça e da idade, contribuindo para a mortalidade dos indivíduos que tiveram a pneumonia viral provocada pelo Sars-CoV-2. 

O risco de agravamento seria algo observado apenas em infecções virais?

MARGARETH DALCOMO — Não. As pneumonias bacterianas também costumam ser mais graves nas pessoas com obesidade. Isso porque o excesso de adiposidade, por uma cascata de fatores desencadeantes, termina afetando a imunidade celular, necessária para o organismo se defender dos agentes por trás dessas doenças. Ou seja, de largada temos um organismo mais inflamado, sem poder se dar ao luxo se inflamar-se ainda mais para evitar danos ao tecido pulmonar. E temos um sistema de defesa que não funciona com a mesma prontidão para evitar que as infecções respiratórias avancem. Essa combinação não é nada boa.

Mesmo sem qualquer infecção, a função pulmonar também não se encontraria comprometida na pessoa com obesidade?

Ela poderá ficar comprometida se o volume de gordura corporal for muito grande e concentrado no tronco. Aí, é como se esse volume aumentasse a pressão externa. Os pulmões, então, não se enchem, nem se esvaziam de ar tão bem e essa mecânica respiratória alterada tem desdobramentos. Por exemplo, ao deixar o fôlego mais curto, o indivíduo com obesidade talvez apresente  menos afinidade para a prática de exercícios aeróbicos — que, por ironia, seriam excelentes para a sua saúde como um todo e para melhorar a própria função pulmonar. Os exercícios de força, estes sim,  poderão ser executados mais facilmente. Sabemos que eles também são importantes, mas o ideal seria combinar os dois. Além disso, precisamos lembrar que a pessoa com obesidade tem maior risco cardiovascular e problemas no coração também podem comprometer o sistema respiratório de diversas maneiras.

A apneia do sono também é mais prevalente em pessoas que estão acima do peso, certo?

Certo. E é por essa razão que o pneumologista deve pedir uma polissonografia ao receber um paciente com obesidade. A apneia consiste em interrupções da respiração durante o sono, que podem ser acompanhadas de ronco. Como a oxigenação não ocorre a contento com a respiração sendo interrompida a todo instante, a pessoa acorda inúmeras vezes sem se dar conta e, no dia seguinte, está bem cansada, como se não repousado. Mas não é só isso: se a apneia persiste por anos sem tratamento, ela pode levar à hipertensão arterial e à doença cardiovascular. Essa relação entre pulmões e coração é de mão dupla.

A sra. teria uma mensagem final?

Eu gostaria que os médicos, de todas as especialidades, alertassem seus pacientes que a obesidade está longe de ser um problema estético. Ela é uma doença. E que orientassem sobre a necessidade da prática de exercícios físicos e de uma alimentação mais equilibrada, com menos sal e menos açúcar, dois ingredientes que, na minha opinião, são venenos na mesa do brasileiro pela quantidade alta com que são consumidos no nosso país. Todos os médicos — logo, meus colegas pneumologistas incluídos — precisam falar mais, muito mais sobre obesidade. *

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