17 de junho de 2020
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Será que um exame de sangue poderá mostrar se estamos bem condicionados fisicamente?

Esta é a ideia de cientistas da Universidade Stanford, nos Estados Unidos: no futuro, oferecer um teste de sangue para complementar a avaliação física e mostrar a reação molecular do organismo ao exercício.

O objetivo inicial, na verdade, era analisar o que acontecia, em nível das moléculas, logo que alguém treinava. O time de pesquisadores prestou atenção em marcadores do metabolismo, da imunidade, do estresse oxidativo e da função cardiovascular, observando centenas de dosagens ou referências obtidas em 36 estudos sobre essas substâncias.

“No sangue, podemos notar uma espécie de flutuação química, ou seja, moléculas que aumentam bastante ou que diminuem consideravelmente durante uma sessão mais intensa de exercício físico”, diz Kévin Contrepois, especialista em metabolômica do Departamento de Genética de Stanford.

Enquanto observavam essa flutuação, ele e seus colegas perceberam que os participantes que estavam bem condicionados tinham uma espécie de assinatura molecular muito parecida nas amostras sanguíneas colhidas antes da atividade física. Ou seja, cada indivíduo pode ter suas particularidades quando está fora de forma. Mas pessoas bem condicionadas fisicamente teriam um mesmo padrão desses marcadores. “Foi isso o que nos inspirou a pensar no teste de laboratório”, conta o geneticista.

Para ver se fazia sentido, os cientistas de Stanford desenharam um estudo de prova de conceito. E, pelo sim, pelo não, já estão pedindo patente do novo exame, que ainda não se encontra disponível para pacientes. Aliás, isso talvez tarde um pouco. Mas os resultados da prova de conceito já foram publicados no final de maio na revista Cell.

Como foi o estudo

É preciso lembrar que o teste de VO2, usado para medir o pico do consumo de oxigênio durante o exercício físico, ainda é considerado o padrão-ouro na Medicina esportiva. Mas os pesquisadores de Stanford defendem que seria interessante esmiuçar detalhes das alterações moleculares proporcionadas pelos treinos.

Os 36 participantes da prova de conceito tinham um IMC médio de 29 quilogramas por metro quadrado e idade entre 40 e 75 anos.
Todos foram submetidos ao teste de VO2 enquanto faziam esteira. Mas antes, claro, foram colhidas as amostras de sangue.

Os indivíduos correram até alcançarem o pico de consumo de oxigênio. Os pesquisadores, então, colheram uma nova amostra de sangue 2 minutos após terem encerrado o exercício. Repetiram a coleta outras três vezes: 15 minutos depois, passados 30 minutos e, finalmente, após uma hora de os participantes terem descido da esteira.

“A análise do conjunto dessas coletas nos possibilitou descrever uma coreografia de eventos moleculares que ocorrem durante e após o exercício físico”, explica Kévin Contrepois.

E, apesar de não ter sido a sua intenção, o grupo de pesquisadores notou um padrão que se repetia na primeira medida, antes da corrida na esteira, justamente naqueles participantes que tiveram melhor performance no teste de VO2.

Próxima etapa

Não se compreende completamente a relação desses marcadores entre si, até porque os cientistas consideraram centenas de moléculas. Aliás, esse é um ponto negativo que os autores reconhecem: justamente pela quantidade de marcadores envolvidos nesse padrão, o teste tende a ser muito caro. E, na prática, esse investimento resultaria em mais informação do que o necessário na rotina dos consultórios.

Daí a meta de uma segunda fase de estudos: o mesmo grupo quer descobrir se haveria um padrão típico de pessoas fisicamente bem condicionadas, só que envolvendo um número menor de moléculas. “Se houver, chegaremos a um teste confiável, mais barato e mais rápido”, diz Contrepois. “E acho que estamos nesse caminho”.


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