08 de outubro de 2022
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Saúde em qualquer tamanho: movimento defende que não é preciso ser magro para ser saudável

Um novo movimento afirma que ser saudável não está associado ao peso ou a um determinado padrão físico. Em vez disso, a abordagem Health At Every Size (HAES) ou Saudável Em Qualquer Tamanho, em tradução livre, define a saúde de uma forma mais inclusiva, eliminando o estigma do peso, respeitando a diversidade de tamanho e melhorando o acesso aos cuidados de saúde para todos.

A endocrinologista Maria Edna de Melo, presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e diretora da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), explica que o HAES é a origem do movimento antigordofobia. Ela considera importante o aspecto inclusivo dessa abordagem e a desconstrução de padrões de beleza, em especial para pessoas com obesidade.

— Mesmo representando mais de 20% da população brasileira, as pessoas com obesidade apanham muito, da sociedade, de profissionais de saúde e até de si mesmas — avalia Melo.

De acordo com a Associação para Diversidade de Tamanho e Saúde (ASDAH), criadora do conceito HAES, as normas sociais atuais priorizam e normalizam corpos esbeltos e magros. No entanto, não é porque uma pessoa é magra que ela é saudável. Da mesma forma que o excesso de peso não equivale a problemas de saúde.

— É você aceitar seu corpo e deixar de lado estereótipos de que só é bonito quem é magro ou tem a cintura de determinado tamanho. Cada um tem sua individualidade de composição corporal que varia muito de acordo com raça, sexo e genética. Às vezes o paciente pergunta ‘qual é o meu peso ideal?’. Eu respondo que não sei e que vamos descobrir juntos qual é o peso que faz bem para ele, que ele consegue manter e que estabiliza seus parâmetros de saúde — completa a nutricionista Priscilla Primi, colunista do GLOBO e mestre pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

Por isso, essa abordagem rejeita o uso de medidas como peso, índice de massa corporal (IMC) ou tamanho do corpo como fator central para a saúde. Da mesma forma que desaprova intervenções centradas exclusivamente na perda de peso, como dietas restritas e exercícios com foco no emagrecimento.

Por exemplo, um dos princípios da HAES é promover uma alimentação que equilibre as necessidades nutricionais do indivíduo e que considere aspectos como fome, saciedade, apetite e prazer. A prática de atividade física segue a mesma linha: os exercícios devem ser prazerosos e sustentáveis e não apenas ter como objetivo o emagrecimento. Outros princípios incluem aceitar e respeitar a diversidade de tamanhos e formatos corporais; reconhecer que a saúde e bem-estar são multidimensionais e incluem aspectos emocionais, físicos, espirituais e intelectuais; e defende o respeito no acesso à saúde para todas as pessoas.

Mariana Rodrigues, de 35 anos, criadora de conteúdo para a internet, é exemplo disso. Durante muitos anos, buscou alguma atividade física: fez caminhadas, musculação, pilates, hidroginástica. Até que descobriu o bodyboard e o fit dance, que a mantém saudável e feliz:

— Eu sempre cuidei muito da minha saúde justamente pressionada pelo estigma de ser gorda e estar fadada à ser doente. Sempre busquei explicar que o único sintoma da doença obesidade é o IMC, um cálculo já considerado obsoleto por vários especialistas. Me encontrei em duas atividades físicas, mas adianto que o que fez total diferença em me sentir à vontade foi o acolhimento dos instrutores e a paciência. Lembrar que a atividade física é uma maneira de manter o corpo em movimento e que nem tudo é sobre performance também ajuda muito. Eu não sou uma super dançarina ou uma surfista que disputa campeonatos, mas com certeza estou longe de ser uma pessoa sedentária, e no fim, é isso que importa na busca por saúde — conta Mariana.

Ser saudável

Mas é possível ser saudável mesmo acima do peso? A resposta é controversa. O principal problema do excesso de peso causa uma séria de alterações que aumentam o risco de problemas de saúde. Diante disso, existe uma corrente que defende que uma pessoa com excesso de peso, sem alterações metabólicas, não precisa emagrecer, pois ela já é saudável.

Isso pode se aplicar, por exemplo, a pessoas com sobrepeso. Atualmente, o principal índice utilizado para avaliar se uma pessoa está com o peso ideal, sobrepeso ou obesidade é o IMC, que considera a relação entre a altura e o peso. Entretanto, do ponto de vista individual, outros fatores como a porcentagem de gordura e a forma como essa gordura está distribuída são ainda mais importantes que o IMC, pois são elas que vão determinar se uma pessoa pode ter um risco aumentado de doenças.

— Uma pessoa magra pode não ser saudável porque isso vai depender de sua distribuição de gordura. Se ela tiver mais gordura visceral (aquela que se acumula na barriga), ela terá um risco maior de diabetes, hipertensão e doença cardiovascular, por exemplo. Já uma pessoa que tem um IMC na faixa de sobrepeso, não necessariamente precisa emagrecer — pontua Melo.

Parâmetros bioquímicos, como exame de colesterol, triglicérides e hemoglobina glicada (exame que traça o histórico do nível de açúcar no organismo dos últimos meses) também fazem parte dessa avaliação.

— Uma pessoa acima do peso, com exames bons, sem problema de mobilidade, que faz atividade física, tem uma porcentagem de gordura e circunferência abdominal dentro da faixa ideal, não tem por que perder peso. Ela é saudável — afirma Primi.

Por outro lado, quando a classificação entra na faixa de obesidade – definida por um IMC a partir de 30 -, a discussão fica mais polêmica. Estudos mostram que existe pessoas obesas que são metabolicamente saudáveis. Ou seja, que não apresentam alterações não laboratoriais associadas ao excesso de peso, e, portanto, não precisam emagrecer para ficarem saudáveis. No entanto, a maioria dos especialistas discorda com essa avaliação.

— Tem muita gente que vai fazer exames e os resultados serão normais. Só que isso não é um atestado de saúde. Tem outros estudos que mostram que muitas pessoas com obesidade são metabolicamente saudáveis, mas no longo prazo, após 10 a 20 anos, isso não se sustenta e os exames começam a se alterar — ressalta Melo.

Obesidade controlada

Todos os especialistas ouvidos pelo GLOBO são unânimes em dizer que a obesidade precisa ser tratada. No entanto, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, o objetivo não é normalizar o índice de massa corporal (IMC) e fazer com a pessoa fique magra e sim que ela fique mais saudável. Nessa linha, surge um novo conceito, defendido por entidades médicas como a Abeso e a SBEM, conhecido como obesidade controlada.

O endocrinologista Márcio Mancini, vice-presidente do departamento de obesidade da SBEM, explica que isso é obtido quando o paciente perde de 10 a 15% de seu peso máximo.

— Vários trabalhos mostram que isso é suficiente para melhorar diversos indicadores de saúde. A ideia é que o paciente se sinta acolhido e que tanto ele quanto o médico fiquem satisfeitos com perdas que melhorem a saúde e que sejam sustentáveis no longo prazo. Do contrário, eles acabam com metas inatingíveis que podem levar a busca de métodos pouco saudáveis e insustentáveis ou à desistência de emagrecer — ressalta Márcio Mancini.

Essa nova estratégia segue a mesma lógica de tratamentos de outras doenças crônicas, como hipertensão e diabetes. Por exemplo, a hemoglobina glicada, um exame utilizado para avaliar o diabetes, é considerada normal abaixo de 5,7%. Entretanto, para pacientes com diabetes, a doença é considerada controlada quando este valor está abaixo de 7%.

Embora a perda de peso seja a chave para a melhora metabólica e para a redução dos riscos associados à obesidade, a adoção de hábitos saudáveis sustentáveis, como prevê o movimento HAES, é fundamental para uma vida com boa saúde física e mental.

— Não é uma barra de chocolate que vai te engordar nem um prato de alface que vai emagrecer. É um conjunto de hábitos, que é difícil mudar, mas é possível, principalmente quando se encontra prazer e propósito — afirma Primi.

Acesse o link do portal do Portal do jornal O Globo: https://oglobo.globo.com/saude/epoca/noticia/2022/10/saude-em-qualquer-tamanho-movimento-defende-que-nao-e-preciso-ser-magro-para-ser-saudavel.ghtml

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