11 de outubro de 2021
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NutriNet: quais padrões alimentares nos protegeriam das doenças crônicas?


Ninguém adoece ou se torna menos propenso a adoecer só porque costuma comer este ou aquele alimento específico. Isso é fato. No final das contas, é o conjunto de tudo o que é consumido ao longo do tempo, ou padrão alimentar, que conta bastante.


Nesse sentido, diversos estudos realizados pelo mundo, sempre envolvendo milhares de pessoas acompanhadas por um bom período de tempo, buscaram saber que padrões alimentares favoreceriam a saúde. No entanto, o que revelaram nem sempre conseguiu ser aplicado com sucesso em outros cantos do planeta, que afinal tinham produtos e hábitos muitas vezes bem diferentes. 
Por esse motivo, um grupo de pesquisadores brasileiros de diversas instituições — como as universidades federais de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul, de Pelotas e da Bahia, o Instituto Nacional do Câncer e a Fiocruz, entre outras —, coordenados pelo professor Carlos Monteiro e seus colegas do NUPENS (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo), resolveu criar uma iniciativa semelhante no país, o Estudo NutriNet Brasil.


Nesta entrevista, conversamos com a nutricionista Maria Alvim, doutoranda em Saúde Coletiva na USP e uma das integrantes do time de pesquisadores do NutriNet Brasil. Ela fala sobre o lançamento da pesquisa em plena pandemia. E, mais do que isso, sobre a importância preservar um bom hábito à mesa — o de comer alimentos in natura ou minimamente processados.

ABESO — Quando exatamente vocês iniciaram essa pesquisa?Maria Alvim — Bem no início de  2020. Mas, cá entre nós, já estávamos trabalhando para o seu lançamento muito tempo antes. Uma iniciativa assim exige uma série de estudos prévios e uma tremenda organização de todos os instrumentos de que precisávamos para realizá-la.Na verdade, ela foi inspirada em outra iniciativa, parecida, realizada na França — a NutriNet Santé, que já acontece há praticamente uma década. Queríamos trazer para o Brasil essa mesma metodologia.


ABESO — Logo depois de vocês terem lançado os primeiros questionários,  porém, chegou a pandemia…Maria Alvim — Pois é… Por sorte,  a pesquisa foi criada para ser totalmente on-line, via o nosso portal na internet. A gente sempre pensou em fazê-la assim, sem nem desconfiar de nada do que aconteceria, claro… E, só por causa disso, por não haver contato entre pesquisador e entrevistado, isto é, por ser tudo on-line desde o princípio, é que conseguimos dar seguimento apesar da chegada da covid-19. Não tivemos de fazer uma única alteração no cronograma de divulgação, recrutamento de participantes, coletas de dados, nada.


ABESO — Qual o objetivo do estudo?Maria Alvim — O grande objetivo é desvendar aqueles  padrões da nossa alimentação que estão ligados ao risco e à proteção de doenças crônicas, principalmente hipertensão, diabetes, câncer, obesidade e síndrome metabólica. Não estamos muito interessados em saber se um determinado alimento aumenta ou diminui o risco de um indivíduo adoecer e, sim, queremos investigar o comportamento alimentar e a dieta dos brasileiros como um todo.


ABESO — E como estão fazendo isso?Maria Alvim — A partir de questionários iniciais, enviados na primeira semana de participação, mandamos outros a cada três ou quatro meses. Alguns são cíclicos, repetidos de tempos em tempos, para flagrarmos mudanças na alimentação de cada um. Outros são inéditos e estes a pessoa responderá uma única vez, contando um pouco sobre seu estado de saúde, como é a sua prática de atividade física e outros aspectos do estilo de vida.


ABESO — A meta é contar com a participação de 200 mil pessoas, certo?Maria Alvim — Exato. E qualquer um acima de 18 anos, desde que tenha  acesso à internet pelo celular, pode se cadastrar e passar a participar em qualquer momento, o que é bacana. E esse é o convite que continuamos fazendo à população. Hoje, temos indivíduos que estão respondendo os nossos questionários há praticamente dois anos, ou seja, desde o início do estudo, e pessoas que acabaram de entrar. Depois, faremos os devidos ajustes para que os achados digam respeito a um mesmo tempo de acompanhamento.

ABESO — Vocês encontram alguma dificuldade para engajar a população no estudo?Maria Alvim — Não diria que seria uma dificuldade.,, Já temos aproximadamente metade dos 200 mil brasileiros que sempre foram a nossa meta. No entanto, gostaríamos muito de ter uma representatividade do Brasil. Mas, até o momento pelo menos, ainda temos muito mais mulheres do que homens entre os participantes, assim como reunimos muito mais pessoas do Sudeste do que do Norte e do Nordeste, por exemplo. Queríamos não apenas crescer essa amostra, mas alcançar a tal representatividade. Mas já sabemos que, mesmo se ultrapassarmos 200 mil pessoas, dificilmente chegaremos lá.

ABESO — Isso invalidaria ]o trabalho?Maria Alvim —De modo algum! Apenas devemos ter o cuidado de dizer que essa é a amostra de 200 mil brasileiros acompanhados por muito tempo — no caso, dez anos. Ela pode não ser o espelho perfeito da população do país, mas  tem muito valor até por apresentar uma tremenda diversidade, composta por pessoas com diferentes níveis de rendas e comorbidades, por exemplo.


ABESO — A pandemia, se não atrapalhou o cronograma de vocês, com certeza alterou os padrões alimentares de todo mundo. Isso não acaba interferindo?Maria Alvim — Realmente, a pandemia chacoalhou todos nós, promovendo mudanças bruscas não apenas na alimentação, mas na atividade física, no sono e tudo mais. Muita gente ficou em casa, em home-office ou em função do desemprego. E nesses meses de pandemia, por sua vez, os comportamentos oscilaram muito. Primeiro houve uma febre de todo mundo indo para a cozinha e até procurando uma alimentação mais saudável. Depois, as pessoas passaram a fazer substituições importantes por causa do aumento de preços, tentando segurar os gastos no supermercado. Eu diria que existem recortes dentro desse grande recorte que é o período da pandemia, o qual ainda estamos vivendo.

ABESO —Vocês já publicaram dois artigos, ambos no Jornal da Saúde Pública, a partir dos dados do NutriNet Brasil falando justamente dos padrões alimentares na pandemia. No que, exatamente, eles focaram?
Maria Alvim — No primeiro deles, comparamos os questionários de janeiro e fevereiro de 2020 — portanto, anteriores à chegada da covid-19 no país —com os de maio. Notamos uma tendência de aumento no consumo de frutas, hortaliças e de feijão também. Em compensação, ao mesmo tempo, no Norte e no Nordeste, bem como entre a população com menor escolaridade em qualquer região do país, houve um aumento no consumo de ultraprocessados. E eles, para nós, infelizmente são um forte marcador de uma alimentação não saudável.


ABESO —O segundo artigo, pelo que sabemos, focou na questão do peso. O que notaram?
Maria Alvim — Neste outro artigo, publicado no início deste ano, comparamos as respostas no período de janeiro a março de 2020 — mais uma vez, anteriores à chegada da covid-19 — com os questionários de setembro a outubro do mesmo ano. Isso porque as pessoas sempre apontam o seu peso. E, desse modo, notamos uma tendência um aumento de quilos na balança. Os indivíduos com menor escolaridade foram aqueles que apresentaram maior risco de ganho de peso. Logo, de obesidade.

ABESO —Existe algo que já dá para se perceber com esse tempo de estudo?
Maria Alvim — Dá para a gente confirmar que no Brasil, como em outros países em desenvolvimento, as pessoas ainda consomem muito alimento in natura, se a gente comparar com o que acontece nos Estados Unidos, na Alemanha e na Inglaterra, por exemplo. E isso, para a saúde, é muito precioso.O problema é que, para a indústria, essa situação é encarada como um enorme potencial de expansão para a venda de produtos ultraprocessados, o que esperamos travar. O consumo desses alimentos aumenta continuamente entre nós. No entanto, esse crescimento deu uma desacelerada, o que é uma pequena boa notícia. Parte da responsabilidade, creio, é do surgimento, em 2014, do Guia Alimentar para a População Brasileira, que foi inovador ao classificar os alimentos pelo seu grau de processamento. Agora, esperamos que o NutriNet Brasil também fortaleça padrões alimentares saudáveis, gerando evidências científicas para a criação de políticas públicas e até mesmo para recomendações em consultório no sentido de evitar ou tratar da melhor maneira as doenças crônicas.


ABESO —Qual recado você gostaria de passar às pessoas?
Maria Alvim — Talvez não um recado, mas um convite: que todos participem do estudo, fazendo um cadastro muito simples no nosso portal e respondendo os questionários, que tomam pouquíssimos minutos. Quem tem obesidade pode contribuir demais e quem trata de pacientes com excesso de peso pode nos ajudar bastante não só participando também, mas divulgando a iniciativa entre os pacientes e seus familiares.

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