31 de maio de 2016
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Afinal de contas, eu tenho o tal do Comer Compulsivo?

É muito frequente atendermos a pacientes que chegam dizendo que têm o famigerado Comer Compulsivo.

Ocorre que, na verdade, apenas a menor parte das pessoas que acham ter o Comer Compulsivo o tem de fato. Vamos tentar esclarecer isso para te ajudar conhecer melhor o mais recente dos transtornos alimentares, o TCAP.

1. Como é a definição correta de comer compulsivamente?

Não, não é comer um doce.

Não, não é comer um salgadinho.

Não, não é tomar um refrigerante.

Não, não é chupar algumas balas açucaradas.

Ingerir todas estas coisas com frequência e em quantidades generosas certamente não é uma boa ideia, especialmente se você está tentando – e precisando   de – perder peso ou manter o peso perdido.

Mas isso NÃO é sinônimo de comer compulsivamente.  Às vezes, sem se dar conta as pessoas acham que comer coisas “proibidas” ou “que têm de ser evitadas” é sinônimo de Comer Compulsivo (até parece algo como se, por fazerem algo “errado”, o castigo vira ter um diagnóstico, ainda mais um diagnóstico psiquiátrico!!!!).

Comer compulsivamente (ou, mais adequadamente dito, ter um episódio de compulsão alimentar, ECA) é comer o que a maior parte das pessoas iria achar uma grande ou imensa quantidade de comida (ou calorias, no caso de comidas MUITO calóricas), num intervalo muito pequeno de tempo (por exemplo, duas horas), com a sensação de não controlar não só o quanto comeu, mas, às vezes também, o que comeu.

Para você ter uma ideia, já forma descritos episódios compulsivos de 5000 a 15000 calorias numa tacada só. Você leu direito: cinco mil a quinze mil.

2. Quando o Comer Compulsivo é patológico, ele tem nome e é Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica ou TCAP.

Mesmo assim, ter um episódio desses uma vez ou outra não é doença: comer demais pode acontecer com quase todos nós de vez em quando. Basta lembrarmos de festinhas infantis ou churrasco na casa dos amigos ou daquelas pizzadas. Mas, note que é esperado ou não é surpreendente que isso aconteça.

A ingestão alimentar passa a ser patológica quando há uma frequência (é definido hoje como sendo no mínimo uma vez por semana) e por um período (no mínimo, nos últimos três meses). Além disso, os ECAs ocorrem às vezes em situações escondidas ou em situações onde não se espera que eles ocorram (o refeitório da empresa, seu carro, seu escritório).

Ou seja, para que se diga que determinada pessoa tem TCAP, ela deve apresentar pelo menos um ECA por semana ao longo dos últimos três meses.

Além disso, estes episódios recorrentes são desconfortáveis, fisicamente e psiquicamente.

No TCAP, o comer compulsivo não está associado a comportamentos inadequados voltados para a perda de peso, como ocorre na Bulimia nervosa, onde além dos ECAs, estão presentes comportamentos inadequados e muito pouco saudáveis voltados para perda de peso (jejuar por muitas e muitas horas, vomitar, usar laxantes e diuréticos, tudo voltado para perder peso, por exemplo). Ocorre também em alguns casos de Anorexia nervosa.

A Bulimia e a Anorexia nervosas são quadros bem mais raros do que a obesidade, mas são bastante graves. Especialmente (mas não exclusivamente) a Anorexia pode ser letal, com alguns autores falando em mortalidades de aproximadamente 20% dos casos.

3. E daí?

A presença constante do comer compulsivo pode ser um sinal de alerta para você procurar ajuda profissional adequada!

Se você tiver qualquer um destes transtornos alimentares (TCAP, Bulimia nervosa e Anorexia nervosa), você tem uma chance muito elevada de ter presente outros quadros psiquiátricos e clínicos (depressão, obesidade, caquexia, desnutrição, diabetes, isso só para citar alguns). Assim, não só os transtornos alimentares são graves por si só, como também estão associados à presença de outros quadros também graves. E isso tem que ser prontamente identificado.

Se você está lendo este texto e acha que pode ter algum destes problemas, não perca tempo: procure em sua cidade por profissionais especializados na área e enfrente o quanto antes esta questão!

Ah sim: NUNCA se automedique, procure por profissionais mesmo. A vizinha, a revista da banca, o amigo, enfim, ninguém vai te diagnosticar e tratar adequadamente, a menos que seja um especialista…

Apesar de não termos tratamentos na ABESO, ficaremos felizes em responder a qualquer pergunta que queira fazer, em caso de dúvida.

Espero que tenha sido útil.

Abração!

Sobre o autor

Dr. Adriano Segal , CRM SP 70168, Diretor de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da ABESO (Associação Brasileira para o estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica)


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